sexta-feira, 10 de outubro de 2025

ENVELHECI (CRÔNICA)

 

    De repente, mais que de repente olhei no espelho e para minha surpresa não me encontrei. Vi um rosto que insistia em refletir que não era o meu,      Era o retrato de alguém que eu nunca havia conhecido, procurei nas minhas lembranças de onde o conhecia, mas foi em vão, por mais que tentasse me lembrar quem era não conseguia. No entanto, algo no seu rosto me era familiar, o brilho do seu olhar, um sorriso franco que a todos conquistava. Um semblante que irradiava a paz, um olhar que parecia perdido contemplando o horizonte distante. Refletindo um sentimento puro que parecia ser saudade dos tempos jubilosos que passaram em épocas felizes.

   Mais onde eu me encontrava naquela época de sonhos e fantasias. Fiel discípulo das noites e madrugadas profanas vagando pelos bares dos amores que surgiam no reflexo de um luar feiticeiro que inebriava nossas mentes e nos conduzia pelos caminhos dos boêmios aventureiros. Mas onde eu estava? por onde andava? Procurei nas mesas dos bares noturnos, encontrei tantos amigos, retratos em preto e branco, que eram próprios daquele período romântico, sempre acompanhados pelas modelos da noite, fascinantes como os desejos proibidos de um tempo sem preconceitos; onde o príncipe regente da orquestra tinha o codinome de amor.

    A brisa maviosa que soprava do mar açoitava nosso rosto num terno carinho nos despertando para a vida. Tentações que surgiam das mesas aleatórias dispostas ao ar livre, iluminadas pela luz prateada de um luar conivente com às paixões proibidas e tentadoras que cruzavam os caminhos dos seus súditos ébrios pecadores perdidos num mundo de tantas ilusões.

   Por mais que eu me prucurasse não conseguia me encontrar. Procurei nos meus vídeos sem sucesso. Como era possível eu estar num mundo lúdico aventureiro e não me achar perdido em algum lugar.

   Resolvi folhear o álbum das minhas lembranças e então me encontrei nas páginas amareladas de um passado, um olhar cobiçador das boemias cercado pelas flores de um tempo que passou e me levou junto com ele.

   Foi então que me encontrei e entendi o porquê dos desencontros, eu já não era o mesmo de antigamente, contemplei o trajeto que tinha percorrido, e em cada canto da minha caminhada, meus passos foram ficando marcados, eu pertencia a uma outra geração, havia envelhecido.

 

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